White paper · rascunho v1 · outubro de 2026

Uma IA que lê o tribunal antes de escrever

Modelos próprios, treinados em 5,5 milhões de votos anonimizados de dez tribunais estaduais, que dizem a um advogado como o tribunal tem decidido o seu tipo de caso, e mostram, em casos reais, que isso muda a peça e a estimativa de chance.

98%do desempenho do melhor modelo comercial, com 1/5 do tamanho
8×mais rápido por consulta em CPU
5,5 Mvotos anonimizados em 10 tribunais
−17%de erro na chance estimada quando a IA lê o relatório
O caso · Turma Recursal do Acre, 2025

Uma servidora estadual do Acre pede, no Juizado da Fazenda Pública, as diferenças salariais de promoções que o Estado atrasou três anos. O próprio Estado já reconheceu as promoções; falta pagar o retroativo, cerca de R$ 27 mil.

Demos o caso a duas IAs idênticas, cada uma no papel da advogada. Uma recebeu só os fatos. A outra recebeu também um relatório sobre como o TJ do Acre tem julgado esse tipo de pedido.

80%«A Turma Recursal pacificou o entendimento de que a postergação indevida enseja o pagamento das diferenças.»IA só com os fatos
30%«Ponto de partida 20% (Turmas Recursais, 1.º semestre de 2025); +10 pelo reconhecimento administrativo; final 30%.»IA com o relatório e o nosso método de leitura otimizado

A Turma Recursal negou o pedido.

A primeira IA não estava errada sobre o passado: até o início de 2024 as Turmas davam razão ao servidor em quase nove de cada dez casos. O que ela não podia saber é que, no primeiro semestre de 2025, esse número caiu para 20%, em mais de duzentos julgamentos. O relatório mostrava a mudança logo na primeira página, e a segunda IA ajustou a estimativa.

Este documento conta como construímos o que tornou isso possível: o acervo, o anonimizador, o encoder e o relatório. E mostra o que medimos quando pusemos agentes de IA a trabalhar com eles.

1. Dez tribunais, uma base limpa

O ponto de partida é o texto integral que os tribunais publicam: 56,8 milhões de decisões indexadas. Para o serviço, ficamos com o que um advogado cível usa hoje (2.º grau desde 2024, turmas recursais desde 2019) e tiramos tudo o que pode identificar uma pessoa.

56,8 Mdecisões
Índice do acervotexto integral de 1.º grau, 2.º grau e turmas recursais
↓
5,9 Mvotos
Janela e matéria2.º grau 2024+, turmas 2019+, cível, sem duplicados
↓
5 etapas
Anonimizaçãocada voto passa por todas, por ordem
1 · NER próprio, janela de 8 mil tokens2 · regras e dicionários3 · aluno destilado4 · poda do excesso5 · moldura do PDF
↓
5,5 Mvotos
Texto do RAG22,5 milhões de trechos de até 2.400 caracteres
↓
v3
Encoder Lapwingum vetor por trecho, para busca por significado
↓
3 usos
Busca · relatórios · agentesjurisprudência citável, jurimetria por tese, peças assistidas
Do acervo bruto ao serviço. A anonimização roda localmente; nenhum texto com dados pessoais sai das nossas máquinas.

2. Um encoder do tamanho certo

O Lapwing é o nosso encoder jurídico: 103 milhões de parâmetros, treinado do zero em português jurídico. Para o medir, colocamo-lo lado a lado com modelos públicos e comerciais, na mesma tarefa e com o mesmo afinamento: dada a ementa, encontrar o relatório do mesmo acórdão entre milhares de votos que nenhum modelo tinha visto.

Encontrar o relatório a partir da ementa (acerto na 1.ª posição, votos nunca vistos). Mesmo afinamento para todos; tamanho ao lado do nome.

Com um quinto do tamanho, o Lapwing chega a 98% do melhor modelo comercial e fica à frente de todos os modelos de licença aberta, com 22 pontos de vantagem sobre o legal-BERT. E é nosso: pode ser vendido, embutido e servido sem custo por consulta. Numa CPU comum, responde em 130–170 milissegundos, contra 1,0–1,6 segundo do concorrente comercial.

A versão que serve o produto melhorou mais 11% na ligação entre as peças de um mesmo processo, mantendo o desempenho na busca de jurisprudência.

3. O relatório muda a estimativa

O caso do início é um de 108, em duas edições independentes do teste. Pegamos casos reais do TJ do Acre julgados depois da data de corte dos nossos dados e pusemos agentes de IA a redigir a petição inicial e a estimar a chance de vitória no recurso. Cada caso foi feito em vários braços, que só diferem no que o agente pode ler. O resultado real só é aberto no fim.

Erro da chance estimada nos 108 casos (menor é melhor). A parte verde é o erro de errar a média; a cinza, o que sobra depois de a corrigir.
Erro de separar casosErro de média

Com o relatório e o nosso método de leitura otimizado, o erro cai 17% em relação ao agente que só tem os fatos, e é o braço com o menor erro de todos. Duas coisas explicam o ganho:

4. Só entra no relatório o que prevê o futuro

Para decidir o que o relatório mostra, testamos todas as combinações de dezenas de variáveis em quatro tribunais, sempre prevendo decisões futuras com dados do passado, e exigimos que cada achado se repetisse num tribunal diferente daquele onde foi encontrado. O que não passou nesse filtro ficou de fora.

No caminho controlamos vieses estruturais que fazem qualquer modelo jurimétrico parecer melhor do que é. O resultado é um relatório curto, em que cada número tem poder preditivo medido.

5. No recurso, a IA chega ao nível do melhor modelo

Quem recorre já tem a sentença nas mãos, e com ela mais informação sobre o caso do que na petição inicial. Repetimos o teste nesse momento: 60 sentenças reais do TJ do Acre, de quatro matérias, e um agente no papel do advogado que recorre, a escrever o recurso e a estimar a chance de provimento.

Erro da chance de provimento nos 60 recursos (menor é melhor). Na referência, o melhor modelo estatístico que construímos para o tribunal, calculado só com decisões anteriores.

Sozinho, o agente dá a quem recorre uma chance média de 41%, quando a reforma real foi de 27%. Com o nosso relatório curto, com acórdãos de casos parecidos ou com os dois, o erro cai 17% e o otimismo desaparece. O agente passa a estimar a chance tão bem quanto o melhor modelo estatístico do tribunal, e ainda escreve o recurso.

Isso é mais difícil do que parece. Um modelo de linguagem, deixado sozinho, escreve bem e erra com convicção: puxa a chance para o lado do cliente e cita a jurisprudência que lhe parece provável, não a que o tribunal tem aplicado. Um modelo estatístico acerta a média, mas não lê a sentença, não argumenta e não escreve. Pôr os dois na mesma ferramenta (a precisão de um com a capacidade de leitura e de redação do outro) é o que permite confiar na estimativa e usar o texto.

Em algumas matérias o ganho é muito maior. Numa das matérias, em que o tribunal não reformou nenhuma das sentenças do teste, o agente com o relatório acertou praticamente todas: o erro caiu de 0,090 para 0,001.

6. Para onde vamos

O anexo de método descreve cada teste em detalhe.

Limitações